Independente de suas crenças ou visão sobre a religião no
mundo real, não existe como negar que a religião foi uma força poderosíssima ao
longo da história da humanidade. Organizações religiosas ajudaram a expandir e
derrubar impérios, destruir ou disseminar ideias e influenciaram as mentes
tanto de governantes como das pessoas comuns desde sempre até hoje. Em mundos
de RPG, as religiões são igualmente importantes, elas ajudam a dar forma aos
cenários além de serem elemento central na vida de muitos personagens. Entre os
arquétipos clássicos da fantasia medieval, o clérigo, o paladino e o druida
são, de uma forma ou de outra, sacerdotes. Mas, a religião dos mundos de RPG
faz sentido? Podemos melhorar o modo como usamos essa ferramenta em nossos
jogos de RPG?
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O panteão grego - mesmo eles concordavam em alguma coisa! |
Múltiplas religiões
ou uma só?
Em mundos de RPG é comum que os
deuses participem muito da vida dor mortais, tal qual acontece nas lendas
gregas, por exemplo. Os deuses conversam com os mortais e eventualmente descem
ao mundo de alguma forma para interferir na história. Isso é legal e funciona
em muitos casos, mas isso faz com que no final só exista uma religião naquele
cenário. Clérigos e paladinos específicos podem escolher se dedicar a um deus
ou outro, mas no final todo mundo tem certeza de que certo conjunto de deuses
existe. Curiosamente, mesmo em mundos com múltiplos panteões, isso frequentemente
é verdade, e todo mundo tem certeza de que todos os deuses existem, e só existe
discordância sobre qual divindade é mais influente e poderosa.
Para que um cenário realmente
tenha religiões diferentes, é preciso incluir no mundo um pouco da incerteza
que temos em nosso próprio mundo. Só podem existir múltiplas religiões se ninguém
pode ter absoluta certeza sobre quais deuses existem, pois apenas assim pode
existir a discordância sobre quais deuses são reais. Em um cenário assim, o principal indício da existência
dos deuses são os milagres executados por seus clérigos (as famosas magias
arcanas). Isso abre espaço para religiões rivais, com visões radicalmente
diferentes sobre como o mundo foi criado ou quais deuses são reais. Eu não acho
que todo cenário tem que partir dessa premissa, mas acho que essa é uma
premissa interessante e extremamente subexplorada nos RPGs de fantasia.
Mas, o que essa
religião prega mesmo?
Pesquisando para a postagem sobre
drows, eu revivi um drama que sempre se repetia quando eu tentava explicar a
religião de algum cenário de RPG para jogadores novatos: o de não existirem
descrições claras sobre os dogmas de muitas religiões de mundos de fantasia. Nesse
ponto, eu gostaria de aplaudir o cenário de Tormenta, que possui obrigações e restrições claras para os
clérigos, o que já ajuda muito! Voltando ao assunto, manuais de RPG sobre
religião frequentemente se focam na cosmologia e/ou poderes concedidos pelos
deuses, sem explicitar o que a religião representa para as pessoas comuns.
Quais são os princípios morais daquela religião? O que seus seguidores
consideram certo ou errado? Como eles veem os membros de outras religiões?
Todas essas são questões cruciais, e frequentemente são totalmente ignoradas. A
dica final aqui então é: se você for criar um cenário de RPG onde existam
religiões, pense nessas coisas! Não veja a religião como um conjunto de figuras
heroicas (como Thor e Hércules), mas sim como algo que põe ideias na cabeça das
pessoas, eventualmente pelo uso de figuras heroicas.
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Uma pequena amostra do panteão católico |
O verdadeiro
significado de politeísmo
Aqui caímos então no verdadeiro
sentido de politeísmo, ao menos nas religiões históricas. Uma religião
politeísta não é formada por séquitos totalmente discordantes, mas sim por um
conjunto central de ideias sobre o certo e o errado. Membros de uma religião
politeísta podem ter preferencia por um ou outro deus, mas no final eles
acreditam nos mesmos princípios gerais, e acreditam que o mundo é regido pelo
mesmo conjunto de figuras. Em mundos de RPG, normalmente os seguidores de uma
religião politeísta (que é a única que existe) só compartilham os conceitos de
cosmologia, mas discordam totalmente sobre o que é certo e errado. Um bom
exemplo são os seguidores de Khalmyr, Keen e Lena no cenário de Tormenta. Os
seguidores de Khalmyr e Keen acreditam na guerra como forma de atingir
objetivos ou "fazer a coisa certa", mas discordam sobre quando é
certo utiliza-la. Já Lena, deusa da vida,
renega totalmente a violência, mas seus seguidores concordam com os de Khalmyr
sobre o que é justo na maioria dos casos. Eu acho isso meio bizarro, a cosmologia é
compartilhada, mas os seguidores de cada deus tem uma visão muito particular
sobre o que é certo e errado. No final funciona, mas é bem diferente de como o politeísmo funciona nas religiões de verdade. Não existe problema nenhum com isso, mas essa não é a única solução, e soluções alternativas podem ser interessantes. Por exemplo, em um mundo com menos certeza sobre os deuses, os seguidores de Keen certamente negariam a existência de divindades como Lena e Marah, e vice-versa.
Eu acho que um bom exemplo pra
sacramentar a ideia de como o politeísmo funciona no mundo real é o
catolicismo. Embora os católicos se digam monoteístas, a verdade é que a igreja
católica reconhece milhares de pequenas divindades, os santos, que podem ir
desde santos super-centrais como a própria mãe de Cristo até santos super-periféricos
como Santo Isidoro, padroeiro da internet. Embora existam discordâncias entre
os católicos, existe um núcleo central de coisas que todos acreditam,
envolvendo o que é pecado e o que não é, e o papel de Cristo na história da
humanidade. Mas, cada católico tem um lugar especial para um ou mais santos em
seu coraçãozinho, e é para esses santos que a pessoa reza, sem que ela duvide
dos outros santos. Essa deveria ser a lógica de uma religião politeísta.
Mas e as ordens
religiosas?
A última coisa que eu queria
comentar são as ordens religiosas católicas. O próprio conceito do clérigo e do
paladino do RPG vem das ordens militares católicas (como os hospitalários) que
foram criadas na idade média. Até os dias de hoje, existem ordens católicas,
principalmente não militares, como os franciscanos. Cada ordem possui votos
diferentes e, portanto, vivem vidas diferentes e supostamente cumprem papéis
diferentes dentro da igreja. Mas todos seguem os mesmos mandamentos básicos.
Isso é uma ideia que está presente em muitos cenários de RPG, mas que eu acho
que pode render muito mais! Conflitos entre ordens da mesma religião, ou ordens
diferentes dentro da mesma religião podem ser ganchos espetaculares.
Nota final
A intenção do texto não é
criticar o panteão de Tormenta! Dos cenários que eu conheço, Tormenta é o que
mais investe em explicar o que os seguidores de cada deus acreditam. O objetivo
era mais colocar ideias novas nas cabeças das pessoas.
Acabei de conhecer o blog, maaas... cara, excelente conteúdo. E bem, 6 anos na estrada, não é para qualquer um em termos de blogs e sites onde tantos vão ficando pelo caminho. Ja está salvo nos favoritos!
ResponderExcluirSucesso!